Políticas neoliberais e saúde mental em discursos presentes no livro didático de língua inglesa do novo ensino médio
DOI:
https://doi.org/10.21527/2179-1309.2026.123.17139Palabras clave:
Saúde mental, Neoliberalismo, Livro Didático, Novo Ensino Médio, DiscursoResumen
O presente estudo constitui-se como um recorte de dissertação de mestrado em que se buscou compreender como o neoliberalismo, compreendido como uma racionalidade e como uma política de governo dos corpos, relaciona-se às políticas educacionais brasileiras, especificamente à Reforma do Novo Ensino Médio (13.415/2017) e à Base Nacional Comum Curricular a partir de discursos acerca da saúde mental. Com isso, objetiva-se analisar o modo como o livro didático de língua inglesa do novo ensino médio aborda o sofrimento psíquico, considerando a interseção entre saúde mental e políticas educacionais neoliberais. Teoricamente, embasa-se principalmente nos estudos de Michel Foucault e em autores como Deleuze (1992); Safatle, Silva Júnior e Dunker (2020); Dardot e Laval (2016); Navarro (2022) e Han (2015; 2018). Metodologicamente, este estudo possui natureza descritivo-interpretativa de abordagem qualitativa. Os resultados permitem compreender que o livro didático, estando ancorado em políticas educacionais contemporâneas, é permeado por relações de saber-poder que disseminam discursos que visam conduzir e orientar os corpos para a produtividade, a resiliência, a disciplina e a eficiência, sobretudo na gestão das emoções e na regulação da saúde mental. A língua inglesa, nesse contexto, desempenha um importante papel por se tratar da língua de acesso ao mercado global, também eleita como obrigatória pela BNCC.
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