Lili Elbe, Christine Jorgensen e Valdirene são Orlandos de Virginia Woolf
DOI:
https://doi.org/10.21527/2317-5389.2025.26.16531Palavras-chave:
Discursividade na literatura, Conhecimento-poder, Orlando, Caso ValdireneResumo
A interdisciplinaridade entre a teoria crítica, a literatura e os estudos culturais tem, nas últimas décadas, se afirmado como um campo de investigação fecundo para o debate sobre o corpo, o gênero e as relações de poder na sociedade contemporânea. Este artigo propõe uma análise aprofundada sobre a possibilidade de interposição de discursos de gêneros literários diversos, articulados a partir de um enunciado e de um contexto real historicamente situado. Lançamos um olhar comparativo e intertextual que reúne as contribuições teóricas de Michel Foucault, especialmente na relação entre saber e poder, com a obra de Virginia Woolf, cuja textualidade e subversão dos paradigmas de gênero ganham ímpeto na narrativa de Orlando. A metodologia considerou levantamento bibliográfico qualitativo, análise documental e análise comparativa da representatividade das precursoras do estudo do corpo transexual nas figuras de Lili Elbe, Christine Jorgensen, internacionalmente e Valdirene, no contexto brasileiro e no personagem Orlando, narrativa literária de Virginia Woolf. Podemos compreender que na década de 1920, Woolf compreendia as barreiras e dificuldades que as pessoas trans enfrentavam e iriam enfrentar no decorrer dos anos, onde a ficção representa a realidade vivenciada.
Referências
BENTO, Berenice. A reinvenção do corpo. Sexualidade e gênero na experiência transexual. Simões Filho: Editora Deveres, 2021.
BENEVIDES, Bruna G. Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Dossiê 2024: assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2024. 2025. Disponível em: https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2025/01/dossie-antra-2025.pdf. Acesso em: 4 fev. 2025.
BORBA, Rodrigo. O (des) aprendizado de si: transexualidades, interação e cuidado em saúde. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2016.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 10 dez. 2022.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Direito das pessoas LGBTQIAP+. Brasília, DF: Supremo Tribunal Federal, 2022. Disponível em: https://bibliotecadigital.stf.jus.br/xmlui/handle/123456789/4808. Acesso em: 12 abr. 2023.
BRASIL. Lei nº 14.532, de 11 de janeiro de 2023. Altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989 (Lei do Crime Racial), e o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), para tipificar como crime de racismo a injúria racial, prever pena de suspensão de direito em caso de racismo praticado no contexto de atividade esportiva ou artística e prever pena para o racismo religioso e recreativo e para o praticado por funcionário público. Diário Oficial da União, seção 1, Brasília, DF, 12 jan. 2023. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/l14532.htm. Acesso em: 6 mar. 2023.
BUTLER, Judith. Quem tem medo de gênero? Tradução Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2024.
CAPRIOLI, Mariana da Silva. Análise do discurso literário: proposta de metodologia no processo de análise documental de textos narrativos de ficção. 2018. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/114462e2-f729-404b-b17c-0dcc0010aac0. Acesso em: 14 fev. 2022.
CHAVES, Leocádia Aparecida; BERTOLINO, Linda Maria de Jesus. Eu experimentei, eu vivi, eu estava lá: sentimentos do cárcere em Meu corpo, minha prisão. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 38, p. 47-63, 2022. Disponível em: https://www.revistaveredas.org/index.php/ver/article/view/861/548. Acesso em: 15 fev. 2023.
DE CARVALHO, Diego Souza. Trans-políticas em trans-contextos: transexualidade, clínica e identidades. Século XXI: Revista de Ciências Sociais, v. 4, n. 2, p. 65-90, 2014. DOI: https://doi.org/10.5902/2236672517038. Acesso em: 14 set. 2023.
DE LIMA CARVALHO, Mario Felipe; DE MENEZES, Moisés Santos. Violência e saúde na vida de pessoas LGBTI. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2021.
DOCTER, Richard F. Transvestites and transsexuals: toward a theory of cross-gender behavior. New York: Springer Science & Business Media, 2012.
DOCTER, Richard. Becoming a woman: a biography of Christine Jorgensen. New York: Routledge, 2013. DOI: https://doi.org/10.4324/9780203057599. Acesso em: 12 ago. 2022.
D'URSO, Flavia. Desobedecer, de Frédéric Gros. Poliética: Revista de Ética e Filosofia Política, v. 7, n. 2, p. 256-261, 2019. DOI: http://dx.doi.org/10.23925/2318-3160.2019v7i2a12. Acesso em: 12 mar. 2022.
FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. Tradução Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos V: ética, sexualidade e política. Tradução Elisa Monteiro e Inês Autran Dourado Barbosa. São Paulo: Forense Universitária, 2012.
FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos IX: genealogia da ética, subjetividade e sexualidade. Organização Manoel Barros da Motta. Tradução Abner Chiquieri. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.
FOUCAULT, Michel. A sociedade punitiva. Tradução Ivone C. Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2016.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. São Paulo: Editora Paz & Terra, 2020a.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade IV: as confissões da carne. São Paulo: Editora Paz & Terra, 2020b.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2021.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2022.
ILGA. Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexuais. ILGA World Maps 2025. Genebra, Suíça, 2025. Disponível em: https://ilga.org/ilga-world-maps/. Acesso em: 15 abr. 2025.
JUSTIÇA. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão n. 26 (ADO 26). Relator min. Celso de Mello. Brasília, DF, 2019. Disponível em: https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=4515053. Acesso em: 15 set. 2023.
JUSTIÇA. Supremo Tribunal Federal. Mandado de Injunção n. 4.733 (MI 4.733). Embargos de declaração. STF equipara ofensas contra pessoas LGBTQIAPN+ ao crime de injúria racial. Brasília, DF, 2021. Disponível em: https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=4239576. Acesso em: 12 mar. 2024.
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Edição comemorativa. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2020.
MATTHYSE, Liberty. Achieving gender equality by 2030: transgender equality in relation to Sustainable Development Goal 5. Agenda, v. 34, n. 1, p. 124-132, 2020. DOI: https://doi.org/10.1080/10130950.2020.1744336. Acesso em: 12 fev. 2022.
MORALES, Ana Isabel Guzmán. Gerda Wegener y Lili Elbe: dos chicas danesas. Cadernos Pagu, n. 65, p. e226507, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/18094449202200650007. Acesso: 11. jul. 2022.
ORBA, Rodrigo. O (des)aprendizado de si: transexualidades, interação e cuidado em saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2016.
PRECIADO, Paul B. Orlando, my political biography. Documentário. Direção: Paul B. Preciado. França: Les Films du Poisson, 2023. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/13592272/. Acesso em: 2 mar. 2025.
ROCHA, Márcia. Diversidade sexual e empregabilidade, preconceito, desafios e soluções para a isonomia: o projeto TransEmpregos. Revista Brasileira de Sexualidade Humana, v. 28, n. 2, p. 82-86, 2017. DOI: https://doi.org/10.35919/rbsh.v28i2.27. Acesso em: 10 jan. 2022.
RODRIGUES, Carla. O luto entre clínica e política. Judith Butler para além do gênero. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
RODRIGUES, Liliana; CARNEIRO, Nuno Santos; NOGUEIRA, Conceição. História das abordagens científicas, médicas e psicológicas sobre as transexualidades e suas aproximações críticas. Saúde e Sociedade, v. 30, p. e200768, 2021. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/sausoc/2021.v30n2/e200768/pt/. Acesso em: 12 jan. 2022.
SAADEH, Alexandre (org.). Como lidar com a disforia de gênero (transexualidade): guia prático para pacientes, familiares e profissionais de saúde. São Paulo: Hogrefe, 2019.
STOLLER, Robert. Perversão. A forma erótica do ódio. 2. ed. Tradução Maria Lopes da Silva. São Paulo: Hedra, 2018.
SARTORI, Thiago Luiz. A efetivação dos Direitos Humanos Transempregos. In: Congresso Internacional de Direitos Humanos de Coimbra. 2022. DOI: https://doi.org/10.29327/1163602.7-290. Acesso em: 5 mar. 2023.
STRYKER, Susan. Biopolitics. Transgender Studies Quarterly, v. 1, n. 1-2, p. 38-42, 2014. DOI: https://doi.org/10.1215/23289252-2399542. Acesso em: 12 abr. 2024.
TEIXEIRA, Flávia. Dispositivos de dor: saberes-poderes que (con)formam as transexualidades. São Paulo: Anablume, 2013.
TONI JUNIOR, Claudio Noel de. Lutas discursivas em torno do corpo: a construção social da subjetividade transexual. 2024. Dissertação (Mestrado em Estudos Linguísticos) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Araraquara, 2024. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/server/api/core/bitstreams/485e0b30-5f06-4305-ab27-4eb45c65aaae/content. Acesso em: 4 abr. 2025.
TGEU. Transgender Europe. Trans Rights Index & Map 2025: The new trans tipping point and Europe’s struggle for self-determination. Berlim, 2025. Disponível em: https://tgeu.org/?s=&topic=intersectionality. Acesso em: 12 set. 2025.
VENTURA, Miriam. A transexualidade no tribunal: saúde e cidadania. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010.
VIDLER, Anthony; FOUCAULT, Michel; JOHNSTON, Pamela. Heterotopias. AA files, n. 69, p. 18-22, 2014. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/43202545. Acesso em: 15 jul. 2022.
WATKINS, Sophie. The Language of LGBT Asylum Discrimination in a Globalized Age. 2023. Trabalho acadêmico. Rochester Institute of Technology, Rochester, 2023. Disponível em: https://repository.rit.edu/student/27/. Acesso em: 12 fev. 2022.
WOOLF, Virginia. Orlando: uma biografia. Tradução Eliane Fittipaldi Pereira e Katia Maria Orberg. São Paulo: Martins Claret, 2021.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Direitos autorais (c) 2025 Claudio Noel de Toni Junior

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Ao publicar na Revista Direitos Humanos e Democracia, os autores concordam com os seguintes termos:
Os trabalhos seguem a licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0), que permite:
Compartilhar — copiar e redistribuir o material em qualquer meio ou formato;
Adaptar — remixar, transformar e criar a partir do material para qualquer fim, inclusive comercial.
Essas permissões são irrevogáveis, desde que respeitados os seguintes termos:
Atribuição — os autores devem ser devidamente creditados, com link para a licença e indicação de eventuais alterações realizadas.
Sem restrições adicionais — não podem ser aplicadas condições legais ou tecnológicas que restrinjam o uso permitido pela licença.
Avisos:
A licença não se aplica a elementos em domínio público ou cobertos por exceções legais.
A licença não garante todos os direitos necessários para usos específicos (ex.: direitos de imagem, privacidade ou morais).
A revista não se responsabiliza pelas opiniões expressas nos artigos, que são de exclusiva responsabilidade dos autores. O Editor, com o apoio do Comitê Editorial, reserva-se o direito de sugerir ou solicitar modificações quando necessário.
Somente serão aceitos artigos científicos originais, com resultados de pesquisas de interesse que não tenham sido publicados nem submetidos simultaneamente a outro periódico com o mesmo objetivo.
A menção a marcas comerciais ou produtos específicos destina-se apenas à identificação, sem qualquer vínculo promocional por parte dos autores ou da revista.
Contrato de Licença: Os autores mantém os direitos autorais sobre seu artigo, e concedem a Revista Direitos Humanos e Democracia o direito de primeira publicação.




